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PORQUE NÓIS NUM TÁ AQUI PRA SER LEGAL

sexta-feira, 18 de maio de 2018

segunda-feira, 30 de abril de 2018

Aline Bei e o silêncio do pássaro morto.




Logo após a morte de Marielle Franco, recebi um áudio de What’sapp nos alertando, sobretudo às mulheres negras, para que permaneçamos juntas:

Fiquem juntas!
Nenhuma de nós, nenhuma, vai aguentar sozinha
(…) uma chora a outra enxuga (…)
Precisamos mais do que nunca ter um mulher por perto.
(…) Fiquemos juntas” Cidinha Oliveira e Nega Duda ( 19/03/2018)

Pois bem, há algum tempo atrás fui procurada pela escritora estreante Aline Bei: queria me presentear com seu primeiro livro. O peso do pássaro morto chegou, mas o correio fez de conta que tentou entregar e não entregou - sempre fazem isso. Minha quebrada é quebrada mesmo. Faz medo. Recebi apenas um aviso de que uma encomenda estaria à minha disposição na agência mais próxima.
Peguei o Peso do pássaro morto e devorei num dia só. Devorei as “liberdade prosaica” que não respeitam os espaços das linhas e vão, como verso, preenchendo de silêncio e som, objeto e vazio na página, como um longo poema, como uma prosa que eu mesma escreveria se tivesse tido tempo.
Li de um só gole de angústia.

Depois desmaiei o livro bem escondido na prateleira que era pra nunca mais ter que me deparar com a história de uma mulher cujas perdas na vida são tantas que até mesmo as páginas do livro ficam pontilhadas de vazio.
Fiquei triste.
Pesarosa.
A trajetória da personagem é contada em primeira pessoa, desde os oito anos de idade e sua primeira narrativa de perda envolve a amiguinha de escola, Carla. Esta, morre durante uma brincadeira de subir no muro e espiar cachorro bravo. Caiu. A explicação dada à protagonista foi dada pelo Seu Luís, um velho amável, benzedeiro, cujos olhos, corrompidos pela catarata, conseguia curar aos outros, mas não a si mesmo. Su explicação resumida foi:

bom,
a carla morreu de
Cachorro”

Cachorro maíusculo, letra maiúscula maior que o C de carla, criança pequena, agora aos pedaços.
É desse jeito que o sujeito lírico feminino vai desenhando sua história, sem nunca dizer seu nome, sem nunca encontrar felicidade que dure mais que o passar de uma estrela que cai.
Sua história é a mesma de tantas mulheres que nascem e morrem praticamente sem terem vivido. Anuladas socialmente, sofrem as agruras de serem mulheres em um mundo em que as mulheres são sistematicamente apagadas, violentadas e mortas. Só no ano de 2016 foram 533 feminicídios. Isso significa que 533 mulheres foram assassinadas no Brasil naquele ano, apenas por serem mulheres! Entretanto, esse dado não inclui todos os casos registrados simplesmente como “crimes passionais”.
Assim, segundo o  Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), a cada uma hora e meia MORRE uma mulher no Brasil (IPEA, 2013).
Para além disso, o silenciamento que, podemos dizer, na obra de Aline Bei, depois das tristezas sobrevividas e representadas pelas mortes de pessoas queridas, por humilhações sofridas na escola, pelo violento estupro sofrido de seu ex-namorado e, por fim, um filho como resultado de tamanha violência. Um filho que nunca lhe despertou amor. Apenas culpa e essa absurda vergonha de ter nascido MULHER!

(…) pensei seriamente
em

aborto.


mas não tive Coragem
pra dizer

Estupro.

então eu disse:

fiz sexo.

e a minha família falou:

- se foi mulher pra fazer, vai ser mulher pra criar. (BEI, p.100)

Nesse enredo cujas belezas da escrita contrastam com as agonias narradas, até mesmo a verdade se perde:

a verdade
estava morta
de tão trancada que ficou por esses anos.
(BEI, p.101)


Por isso, porque a história das mulheres tem sido tão traumática e esse trauma tão normatizado que muitas de nós sequer nos damos conta da opressão, repito as palavras de minhas irmãs negras: “Fiquemos juntas”.
Aline. Sua escrita é força, é poder. Por favor, continue a escrever e compartilhar.



Referências:

BEI, Aline. O peso do pássaro morto. São Paulo: Editora Nós, 2017, 168 pp.

DUDA, Nega. OLIVEIRA, Cidinha. Fiquem juntas. Audio de Whatsapp recebido em 19/03/2018.

INSTITUTO DE PESQUISA ECONÔMICA APLICADA (IPEA). Violência contra a mulher: feminicídios no Brasil. Disponível em: <https://www.ipea.gov.br/portal/images/stories/PDFs/130925_sum_estudo_feminicidio_leilagarcia.pdf>. Acesso em 22/04/2018.

terça-feira, 24 de abril de 2018

Carta à Família Solano



“Para Zinho Trindade."


"Em memória de Raquel (1936-2018) e Solano 

Trindade (1908-1974) ”

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Quando a filha do poeta morreu 
aos ombros do seu neto 
recaiu toda a carga: 
a longa história 
as lutas, as amarras 
da família. 

Mas te escrevo pra dizer, menino 
que sozinha eu/nóis num guenta. 
Nem você. 

Ñtão que a história da tua família permaneça 
no horizonte: um Forte de esperança 
Maracatu convocando 
à dança: 

Liberdade e Negritude. 
A Justiça de olhos abertos                      enfim igualando a balança. 

sábado, 14 de abril de 2018

Quase canção de exílio


Mole não
ou: Quase canção de exílio

A vida de pobre é que nem rapadura:
doce. Mas dura.

Piora ainda mais quando os coxa

“confunde” a barra de doce
com a barra diet
de crack.

Papai comia na roça
rapadura com farinha…
Todo mundo conhece a piada:

“Se os puliça dá pau em que cheira…
O que não vão vazer com o Norte?

Ói, eu vou é mimbora daqui
vou voltar lá pro Nordeste.
Plantar cajuína e maconha
no terreiro do cangaço

São Paulo já foi terra boa.

Agora é terra de tôca.

Atolada.



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Que burro, dá zero pra ele!






sexta-feira, 6 de abril de 2018

Povo surpreendente. Povo resistente

"A esperança vence o medo
já não é segredo.
Os pobres pelos pretos para os pobres com os pretos.
Só quem é é. Jamais vai esquecer"
Clã Nordestino

Minha mãe tem mais de 70 anos. Viu muita coisa na vida. É cearense, migrante, evangélica e sempre foi chefe de família. Sempre votou no PT e sempre detestou o Maluf, Alckimin, Serra e outras  figuras carimbadas da cena política nacional.
Hoje, veio em casa nos dizer que, livre ou preso, ela vai votar novamente no Lula.
Mas isso não é surpreendente.
O surpreendente na história é ela ter dito que quando o detestável Maluf foi preso, ela quase chorou de dó. 
Pena do bandido que acha que bandido bom é bandido morto? 
Sim. Naquele momento, o que ela via não era um criminoso sofisticado, mas uma pessoa humana prestes a passar pelas agruras desumanas das prisões brasileiras.
Nosso povo é surpreendente. Mesmo com todas as estratégias que usam para nos desumanizar, ainda resistimos e, como diria o Clã Nordestino "nos mantivemos de pé. Nem por um segundo reduzimos nossa fé".
Avancemos.

sábado, 17 de março de 2018

Sobre as manifestações: Nosso nome é tumulto e escreve-se na pedra


"Criticamos tanto o Capital e o Neoliberalismo, mas esquecemos que ele tem nome, identidade e cara feia..." 




Sim. São muitas as razões para irmos às ruas nos manifestarmos: mataram a vereadora Marielle Franco e um montão de mulheres negras e anônimas que a mídia não se dignou a relatar; retiraram o leite das crianças (isso se faz mesmo?) e deram porrada e bala de borracha pras professoras; o transporte público é caríssimo e desconfortável – pra dizer o mínimo -, e as filas para atendimento à saúde só aumentam. 

O problema é que não estamos enxergando X da questão: enquanto morremos e somos espoliadas, o grande Capital segue tranquilo, tranquilo… 

Enquanto morremos e somos espoliadas, uma absurda dívida externa vai comendo nossas possibilidades de sobrevivência. 

Enquanto morremos e somos espoliadas, os bancos e as grandes empresas prosseguem lucrando, apesar da crescente miséria geral, perpetuando o racismo nosso de cada dia. 

É como diria o velho Drummond: “As leis não bastam, os lírios não nascem da lei”. 

Infelizmente, nem leis, nem manifestações bastam. Estas últimas, principalmente, se incomodarem apenas os espaços de decisão “política”, ignorando que suas bases estão calcadas nos interesses econômicos das grandes empresas. 

Prefeitinho cinza, a empresa que te vendia o leite deu mancada? Será que ela se esqueceu de financiar sua campanha? 

E qual que é em relação à aposentadoria das professoras? Tínhamos que nos casar com maridos ricos, como sugere o seu comparsa Maluf? Ou tem alguma empresinha de previdência privada querendo crescer às custas da nossa exploração? 

Ei, explorados e favelad@s de todos os cantos, não basta irmos pras ruas, pois, como temos visto, a despeito de tantas pessoas nas ruas, fazendo manifestações, as leis só pioram. 

Mas não estamos aqui fazendo uma contrapropaganda, porém dando a dica de que sair às ruas sem afetar fortemente os donos do dinheiro não causa muito efeito: a grande mídia dá mais destaque a trabalhador@s, mal informados, que fazem discurso contra a falta de mobilidade do trânsito, do que à causa da manifestação. 

Ao irmos às ruas temos que saber fazer o quebra-quebra e boicotar, não a Av. Paulista, mas sim a BMF e Bovespa. Temos que impedir a entrada de operadores financeiros, pois as suas operações (o câncer que a burguesia impõe) são atreladas às “Bolsas de Valores” de todo o mundo, e as “Bolsas” de fora não vão deixar de iniciar suas atividades lucrativas por causa da do Brasil. Sem operações financeiras, não tem lucro. Sem lucro, o capital pira. Aí sim, estaremos incomodando de verdade e os políticos – tentáculos da elite – serão forçados a rever suas decisões. O mesmo serve para os bancos que têm, geralmente na Paulista e Faria Lima, uma espécie de seção da BMF e Bovespa. 

Já que é pra tomar bala de borracha que seja tentando fechar a BMF. 

Para irmos às ruas, temos que saber que, caso nossos desejos não sejam respeitados, devemos iniciar esse tipo de boicote a várias instituições, desde as de esporte até as religiosas. Pressionaremos os donos do dinheiro. Estes, como sabemos, têm grande desconforto com apenas algumas horas sem lucro ou dízimo. 

Vai que vira moda e as professoras resolvem se instalar em frente à Ford e tentar proibir meio dia de produção? 

Sendo assim, não podemos atacar apenas as instituições políticas, pois elas nada mais são que um dos braços das instituições comerciais, incluindo as igrejas. Temos que direcionar o ataque ao grande capital financeiro, industrial ou agroindustrial. Precisamos entender quais são, por exemplo, as contribuições do banco Itaú na construção de uma sociedade colonialista que empobrece o povo, incluindo professoras. 

Daí, num momento de greve, não simplesmente atacaremos a Secretaria de Educação ou a Câmara de Vereadores, convencidos de que estamos fazendo política, mas também compreenderemos que a verdadeira política não é feita nas chamadas “casas do povo”, mas no conselho gestor das grandes empresas. 

Sabendo disso e agindo conforme, então impediremos que nos matem, nos maltratem e nos roubem. 











sábado, 17 de fevereiro de 2018

RAP NACIONAL É COISA SÉRIA: O GANGSTA, O FEMININO E O LÚDICO

Entre trilhas sonoras dos guetos, Divas do Rap e Somos Nós a Justiça há uma longa história do rap sendo contada e redesenhada. Desde os anos 80, o ritmo e a poesia vêm servindo de base para o letramento e a visibilização da população negra, pobre e periférica. Pretendemos neste breve ensaio analisar os novos letramentos construídos a partir das outras cenas políticas e culturais do hip-hop atual. Nos palcos e nas vidas destacam-se o revolucionário verbo gangsta, o das vozes femininas e da ludicidade. Por traz da guerrilha urbana ideologicamente protagonizada, por traz da feminilidade em luta contra o feminicídio, e do humor sarcástico, a ironia vai corroendo as pedras e abrindo caminhos para a reexistência.






Das letras de rap ao letramento


Desde os anos 1980, o movimento Hip Hop vem se destacando enquanto espaço de letramento para jovens das periferias brasileiras. Tal afirmação, apesar de genérica, permanece válida ainda nos dias de hoje, quase quarenta anos depois dos primeiros grupos de rap’s e das primeiras posses (coletivos de Hip Hop) se formarem. Mais do que espaços de apreensão do mundo, tais coletivos figuravam como vias de resistência, de compreensão e desconstrução de um mundo onde o racismo, o machismo e a luta de classes moldam personalidades, impõem leituras de mundo, geram estereótipos e delimitam espaços de vida e de morte.


Segundo Souza (2011) letramento significa “capturar a complexidade social e histórica que envolve as práticas cotidianas de uso da linguagem” (SOUZA, 2011, p. 36). Para a autora, tais práticas apontam para a reinvenção dos usos sociais da oralidade, do verbal e do não verbal, dos movimentos dos corpos que provocam e deslocam as identidades étnico-raciais, de gênero, sexualidade, etárias e outras que nos são caras. Ela aponta ainda para a “necessidade” de embranquecimento dessa população:


Para ser leitor, dentro de um processo em que a palavra escrita é européia e responde às teorias racistas vigentes, é preciso embranquecer. As leituras de negros e mestiços, marcadamente influenciadas pela tradição oral desvalorizada, juntamente com seu corpo de descendência africana, não têm lugar, valor algum se comparadas aos valores da leitura e da escrita ensinados na escola, ou fora dela (SILVA, 2011, p. 40).


Sua afirmação vai ao encontro da tese fanoniana de que “ser uma pessoa negra não é realmente ser uma pessoa, pois “há uma zona de não-ser, (..) onde um autêntico ressurgimento pode acontecer (FANON, 2008, p.26)”. Dado que a qualidade de “ser humano” estava restrita à raças brancas, segundo as teorias racializantes tão bem propagadas a partir do século XIX (SCWARTZ, 1993), tal ressurgimento em terreno só pode ocorre com uma reconstrução de identidades.


Assim, de acordo com Fanon, em uma sociedade baseada na divisão de classe e raça, por mais que se esforce para provar sua pertença à espécie humana, a população negra, seu trabalho, sua visão de mundo, seus atos culturais serão vistos sempre como “de segunda classe”. Uma das maneiras que jovens negras e pobres encontraram para combater tal desumanização foi justamente o Hip Hop com seu potencial de letramento e reconstrução de existências.


Por sua vez, se visitarmos o velho mestre Paulo Freire (1988), relembraremos que o ato de ler significa “ler o mundo” atentando para suas contradições, para os papéis socialmente atribuídos, para o conceito marxiano de “opressores e oprimidos”. Nesse sentido os novos cenários e protagonistas do rap, têm colaborado veementemente na leitura desse mundo e, na linha de frente da velha batalha entre quem manda e quem tem juízo, empunham novas armas gangsta’s, feministas e irônicas.


Trilha Sonora do Gueto: Muita calma, playboyzada, não precisa se assustar


No ano de 1999, em plena era do genocídio negro, e ao final da “Era dos Extremos” (1995), surgia O Trilha Sonora do Gueto, ou simplesmente T$G. O grupo tem atualmente quatro álbuns e um DVD.


T$G faz parte de um sem número de grupos de rap nacional que iniciaram carreira entre os anos 1980 e 1990 e, além de terem marcado época, sobrevivem reinventando-se continuamente. Sua música mais tocada é, sem dúvida, “3a Opção”, cuja narrativa nos dá conta de uma cena de assalto a banco em que o protagonista, após ser encurralado, busca se proteger fazendo alguns reféns dentro do banco. Quando percebe, no entanto, que a morte é certa, o protagonista percebe que tem três opções: sair pela frente e ser linchado; sair pelos fundos e ser assassinado pela polícia; ou se matar. No entanto, em “fração de dois segundos”, tem a ideia de convocar o repórter televisivo Datena e sua equipe para fazer a transmissão ao vivo da “cena” e tentar evitar mais uma tragédia social. A estratégia funciona, mas o protagonista é preso:


Eu só vou me entregar
quando aquele sem futuro
do Datena me filmar.
To ligado que p’ceis
eu não valo um real,
mas se cêis invadir
o refém vai passar mal.
Ele tá todo borrado,
tá mijado, tá com medo.
Tá pagando até com juros
o racismo e o preconceito.

(T$G, 3a opção, 2003)

O protagonista dessa história, e que se mescla ao sujeito poético, é nada mais nada menos que o próprio vocalista do grupo: Cascão. Este, cumpriu pena de sete anos, após liberto formou-se em Direito e permanece cantando rap criminal.


Entretanto, passaram-se quase 20 anos e, nesse meio tempo, a situação das cadeias, dos presos e os códigos de ética vigentes nesses espaços e nas ruas mudaram radicalmente. Se naquela época havia uma enorme quantidade de homicidas presos e à solta, nos dias de hoje, na cidade de São Paulo, isso não é mais possível. Tal mudança ocorreu, basicamente, devido ao fenômeno “Primeiro Comando da Capital” (PCC) – que proibiu terminantemente as mortes nas periferias e cadeias, sem prévio julgamento da “corporação” (Mota, 2017).
O estilo gangsta do grupo, no entanto, permanece ativo e ainda mais contundente: faz a crítica do próprio hip hop:

No começo, tudo forte, tudo cheio de teoria
contra a droga, o sistema e toda a patifaria
Cadê o discurso Malcon X, Marthin Luther King, né?
Virou camarote com wisky e red bull
mulherada nas baladas, hoje nóis é só mais um.

(T$G, Rap é Poder, 2001)

E critica também aspectos da sociedade e do sistema carcerário:
Seu dinheiro dos impostos
que foi gasto por aqui
eles usam pra maldade
Deposita nesse GIR
(Grupo de Intervenção Rápida) na covardia
que não tira a toca ninja
pra viver no outro dia
Tudo robô do governo
que se pá nem vida tem
enquanto os grandes de Brasília
lá não liga pra ninguém
(T$G, W2 Proibida 2013)

Por fim, permanece com um estilo ainda mais desafiador, fazendo elogios ao PCC, afrimando que o “Partido”, como também é conhecida a organização dos presos, teria tomado o lugar que caberia ao Estado, no sentido de garantir os chamados direitos fundamentais de cada ser humano, previstos na nossa Carta Magna e na Declaração Universal dos Direitos Humanos, da qual o Brasil é signatário:

Ceis devia agradecer nóis do Pan da Capital
que deixamos todas vila e favela na moral
Já não morre mais ninguém
Nóis que fez acontecer
Essa música faz parte assim de um dossiê.
(T$G, W2 Proibida 2015)

Como se vê, há no gangsta rap do TSG uma preocupação social difícil de ser digerida por parecer paradoxal: narra-se o crime, mas a busca é pela paz. Tal paradoxo é recorrente em atos de resistência e, a julgar pela popularidade do grupo – mesmo fora dos meios oficiais de comunicação – depreende-se que ele é absolutamente representativo de uma população insatisfeita, oprimida e em busca de ícones, símbolos e fortalecimento. TSG, sem dúvida, atua nesse fortalecimento, propõe novas leituras de mundo e novas formas de existir e resistir.

“Respeita, tio, no bagulho, que as mina é organizada e veio fazer barulho”


Outras mudanças aconteceram desde que os primeiros grupos de rap começaram a subir nos pequenos palcos de madeira improvisada dos anos 80. As mulheres, por exemplo, tinham pouco espaço e figuravam na maioria dos grupos de rap apenas como back vocal.


Houve excessões, lógico: Dina Di, Sharylaine, Francis Negrão e Mara Onijá, por exemplo, desde sempre despontaram no rap como potentes vozes femininas cujas letras já impunham posicionamentos contrários ao machismo explícito nas letras de praticamente cem por cento dos grupos nacionais.


Hoje, diante de uma certa derrocada dos grandes nomes do rap – que agiram quase como o o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (“esqueçam tudo o que escrevi” ) - e partiram para o mundo das celebridades, cresceu a força feminina. Enquanto os novos artistas posam ao lado de Lucianos Huks, Angélicas, programas de domingo e casas de artistas decaídos, longe das telas televisivas, nas quase democráticas redes sociais, tomamos contato com novas e velhas vozes do hiphop, em sua versão feminina e feminista: As Divas do Hiphop, por exemplo, reúne importantes nomes como Cris do SNJ, Yzalú, Amanda Negrassim e o rapjazz de Tassia Reis.


Além disso, temos as mulheres que sempre estiveram por dentro do movimento e que resolveram ativar suas vozes nos microfones. Com maestria, elas contestam o machismo, o racismo e o superencarceramento da nossa população.


Destacamos aqui as Sankofas – grupo encabeçado por algumas das mulheres integrantes da Posse Força Ativa (Bia e Lilian): suas letras são um misto de ira e pedagogia. “Rap pedagogia das oprimidas”, como no trecho que segue:

Bateu o martelo a justiça que é pra poucos
no país que, pra falar verdade, é pra loucos
loucos por capital
loucos por funeral
loucos por violência
Isso é lavagem cerebral.
Mulheres encarceradas,
quantas prisões estão sendo forjadas?
Mulheres encarceradas,
para o Estado é só um número e mais nada.
(SANKOFAS, 2017)

Na mesma linha da pedagogia das oprimidas e da ira, devemos apontar também, dentre outros nomes, Sara Donato, Luana Hansen e Issa Paz: rap raivoso, gangsta para assustar qualquer pessoa que ouse desqualificar a luta feminista:

Ce adora as mina quieta
Eu só desejo que ce cale a boca
Empoderamento feminino não é sua escolha
Hipócrita pra caralho
quer falar mal da minha xota
(…) Cala a boca!
(…) Eu quero paz, mas MC escroto não falta…
(DONATO et al, 2017)

De igual pra igual, a partir do “terrorismo feminino” faz-se curvatura da vara leninista inclinar até o ponto mais distante:


Toca aí vai, deixa eu escutar essas merdas
É 24 horas no ar poluindo a terra
É tchu, tchatcha, tcherererê, vai se foder
Mas é isso que cês quer, tanto fez tanto faz
Vão cagando e andando e vocês seguindo atras
(...)
Quem é, se identifica, modifica sua visão
Sente a pureza que vem do coração
Da ibope falar de amor, mas eu não sou medidor de audiência
Canto rap pesado mesmo, só pra não perder a essência
(idem , 2017))


E no extremo da vara de minerva existem as críticas pesadas, internas ao movimentos que muito tem a avançar justamente por ser algo sério, pedagógico e libertador.



Rap nacional é coisa séria



As posturas justas e agressivas das mulheres que hoje continuam a inspirar outras mulheres e dão continuidade à história do Hip Hop demonstram o quanto de seriedade ainda há nesse movimento que, desde sua chegada ao Brasil, vem fortalecendo as identidades negras e a consciência de classe, mas que deixou e ainda deixa a desejar quanto às questões femininas.


Entretanto, o movimento é formado por uma grande maioria de pessoas inteligentes. Assim, a tendência a falar mal de mulheres, a inferiorizá-las, vem diminuindo consideravelmente.


Além disso, vale dizer, nem só de agressividade vive o rap. Temos também a crítica posta pela via da ironia, do humor e da brincância. O grupo Somos Nós a Justiça, por exemplo em seu primeiro álbum, homônimo, já trazia faixas recheadas de ironia, humor e dramatização para produzir obras que fossem pedagógicas e críticas. Na faixa 9, por exemplo, temos a música “Bem pra cima”:


Em cima do palco, vê se é educado (educado)
Ninguém pagou entrada aqui pra ser maltratado (maltratado)
Eu peço licença pras mina, eu peço licença pros cara
Na humildade estamos cantando aqui na sua área
Com um estoque de canções positivas, pra que todos nós um dia sejamos futuristas
O rap e suas letras, demonstram inteligência
(SNJ, Bem pra cima, 2001)



Como se vê, o grupo primeiro chama a atenção para a necessidade de respeitar o público que ali está e, em seguida, parte para a aula de como fazer um bom rap: um som crítico, que levante a autoestima do povo e que seja agradável aos ouvintes:



Já provamos pra todos que aqui não existe incompetência
O hip-hop unido, movido à revolução
Faço um som pra cima,
um bem bolado e vou cantando
A minha rima é tipo O positivo
E com isto, tem umas resistências no improviso,
pra mostrar que o hip-hop é coisa séria
Tá pensando que é fácil fazer sucesso,
rimar com coerência,
agradar vários adeptos ?
(SNJ, Bem pra cima, 2001)

Na sequência, em outra faixa do disco, verifica-se uma aula de história da atualidade que recupera aspectos cristalizados do que se ensina nos livros didáticos para contestá-lo, criticá-lo, sem desprezar o bom humor: ferramenta sagaz, sarcástica, corrosiva e moralizante (BOSI, 2012):

A espada de Cabral cortou a nossas raízes
E na escola não aprendemos nada disso
A professora não explicava nem o que era genocídio
Para com isso.
(...)
Pero Vaz, de correio, lhe enviamos esta carta
Leia com atenção
interprete com sabedoria
O maior investimento da casa da moeda:
através da leitura
tu adquires um conhecimento.

Um cara mui famoso intitulado herói do povo
que diz ter descoberto e se apossou do que era do outros
Saca só, fica ligeiro:
Nos dias de hoje é figurinha carimbada
No dinheiro de plástico .
(SNJ, Viajando na balada, 2001)

Se ouvirmos o ritmo da música veremos que há um contraste entre a seriedade dos temas tratados (genocídio, problemas da educação básica, letramento que se dá fora dos meios escolares, etc) e o ritmo dançante, os tons das vozes irônicas e humorísticas e as próprias escolhas lexicais, que sugerem informalidades, brincadeira (figurinha carimbada; dinheiro de plástico) e se somam às gírias (saca só; fica ligeiro).


Em 2012, o mesmo grupo lançou lançou o álbum “Origens”. Este, por sua vez, mantém o estilo do grupo e segue recuperando a história para compreender a fazer a crítica do presente. A música “Viajando na balada - parte II” faz uma rica atualização do que já vinha sendo criticado há quase 20 anos atrás:


A sociedade em rede gira
mundo, mundo gira
são vários flashes.
Muleque ranhento
cresceu agora
só fala em cash.
Nasdaq, Dow Jones
o mercado em aquecimento.
Bolsa sobe, bolsa cai
e o povo no esquecimento
(SNJ, Viajando na balada parte 2, 2012)


A crítica do SNJ vem em um momento em que, como dizíamos, alguns rappers se tornaram celebridades e, de certo modo, deixaram a juventude periférica órfã de lideranças políticas e culturais. Assim, todas as pessoas e grupos aqui citados (e também um sem número de não citados) ocupam o espaço vago deixado por esses “artistas”:
Na linha traçada de forma bem explícita pelo TSG, o grupo ainda expõe sucintamente sua opinião sobre a atualidade em um refrão crítico, desafiador e contagiante.

Bang bang bang ohohoh
Uns viajam na balada
outros tão louco na pista
Bang bang bang ohohoh
amotinados não mais de frente pra TV
no computador é o que se vê
Bang bang bang ohohoh
Prosperidade ao hip hop
vida longa aos fora da lei
Bang bang bang ohohoh
aos MC’s, Bboys, DJ’s e grafiteiros
um império que aumenta a cada dia no mundo inteiro
(idem, 2012)


Rap 10


Assim, embora analisados de forma breve, nesses anos 2010, percebe-se que o novo cenário do Hip Hop traz boas novas, no que tange à situação feminina dentro do movimento, no sentido de permanência de uma criticidade fundamental ao reforço das identidades negras, femininas e pobres, as quais ainda são cotidianamente pisoteadas por um sistema que elegeu exatamente esses grupos para inferiorizar e explorar.


Nesse sentido, esses novos cenários do movimento ainda são de suma importância no contexto do letramento do povo pobre e na manutenção de sua integridade, na abertura de caminhos de resistência e reesistência.


Referências Bibliográficas

BOSI, Alfredo O ser e o tempo da poesia. 7a edição. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.


___________. Literatura e resistência. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.

FREIRE, Paulo. A Importância do Ato de Ler: em três artigos que se completam. 22 ed. São Paulo: Cortez, 1988.

HOBSBAWM, Eric J. Era dos extremos: o breve século XX: 1914-1991. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

MOTA, Eduardo Guilherme de C.; MOTA, Maria Nilda de C. Das contradições do Capitalismo ou: Metralhadora de chocolate. São Paulo, Ed. Me Parió Revolução, 2017.

SCHWARCZ, Lilia Moritz. O Espetáculo das Raças – cientistas, instituições e questão racial no Brasil 1870-1930. São Paulo: Companhia das Letras, 1993.


Discografia

DONATO, Sara. Cypher "Machocídio" - Sara Donato, Luana Hansen, Souto MC, Issa Paz [HD]. Disponível em <https://youtu.be/GjbufgkfY0I>. Acesso em 29/11/2017.

SNJ. Viajando na balada. In.: Somos nós a Justiça. 2001. 1 CD

SNJ. Somos nós a justiça. In.: Somos nós a Justiça. 2001. 1 CD

SNJ. Viajando na Balada Parte 2. in.:Origens. 2012. 1 CD

T$G. 3a Opção. In: Us fracu num tem veiz. 2003 1 CD

T$G. Rap é poder. In: Du Lixu au Luxu, 2015. 1 CD

T$G. W2 Proibida. 2015. Disponível em <https://youtu.be/D9S72snUGO0>. Acesso em 29/11/2017.

SANKOFA. Mulheres encarceradas. Disponível em <https://www.youtube.com/watch?v=8GvjrC4iaFE>. Acesso em 30/11/2017.






terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

Gado cortado - LEI


LEI Na favela pacificada a chave do terror fica guardada e a permissão de usar não se tem. Só nas curvas mais fechadas onde os vermes deitam, rolam e arrombam portas é que se viola a lei

sábado, 10 de fevereiro de 2018

Oração Capital a quem não olha e já nem vê



Oração Capital a quem não olha e já nem vê 



"Eu recebi sei tic (quer dizer kit)
de esgoto a céu aberto e parede madeirite. 
De vergonha eu não morri, tô firmona, eis me aqui.
Você não, você não passa quando o Mar Vermelho abrir"

Meus.
Talvez a vida não se enquadre
na tela do smart
e nem a língua se caiba
no chip da net
na linha do fone
da operadora
de crédito
negativado

(nem a água chegou lá).

Meus! Talvez
o sonho é passado
no buraco abstrato
dos milhões de cadeados
e inúteis fechaduras
de casulos esmagados
por pés-de-pato
e outros milhões de bichos-otários.

Talvez só a tarde
na margem delimitada
se personalize em mágoas.
E talvez os segredos se choquem
com os deslizar das redes
pega-peixe,
cara-a-cara e outros temíveis
brinquedos.

Talvez a vida não caiba,
no curso que estás preparando.
Suponho
que essas linhas tortas
sejam parte dos seus prantos
(lágrimas de crocodilos dandies).
Só com a fé e
a inaudita com fiança,
sabemos,
no revés das armadilhas de todos os santos
plantaremos chagas e
não colheremos em cantos.

Pronto!

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

Só a favela sabe como é




Tem jeito não



Talvez eu precise um poema.
Um poema que resgate
a minha integridade
e o zumbido do cotidiano.

Um poema que resgate o espanto
o pranto
as noites mal dormidas
e a vermelhidão dos sonhos
mais conjuntivos.

Um poema que resgate a teoria
do susto. Dos conjuntos,
o surdo, o mudo, o justo
o sábado, o sapo e as testemunhas
oculares

um poema que               retarde
me desgaste
até o osso
paisagem onde o monstro
do café se sabe morto
corpo solto fora
na boca do soco

um poema bolha triste
sem sabão:
sem som
sem ar
sem condições.

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

SOCIOLOGIA DO NEGRO BRASILERO - CLÓVIS MOURA (PDF completo)

SOCIOLOGIA DO NEGRO BRASILERO - CLÓVIS MOURA (PDF completo)
Devido as condições nossa ideia é publicar alguns capítulos por vez. Aqui esta a INTRODUÇÃO. Caso precisem de uma página específica é só pedir que encaminharemos.CLICANDO NA FOTO A IMAGEM MELHORA








terça-feira, 30 de janeiro de 2018

Angela Davis no Brasil // Curso: feminismo negro descolonial nas Américas

Angela Davis no Brasil // Curso: feminismo negro descolonial nas Américas

 

FEMINISMO NEGRO E MARXISMO

FEMINISMO NEGRO E MARXISMO

MARXISMO E QUESTÃO RACIAL

MARXISMO E QUESTÃO RACIAL

O PENSAMENTO RADICAL DE CLÓVIS MOURA

O PENSAMENTO RADICAL DE CLÓVIS MOURA

DIALÉTICA RADICAL DO BRASIL NEGRO - CLÓVIS MOURA

DIALÉTICA RADICAL DO BRASIL NEGRO

REPRESENTAÇÃO DA PESSOA NEGRA NA TV BRASILEIRA

REPRESENTAÇÃO DA PESSOA NEGRA NA TV BRASILEIRA






quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

A P2 e os fakes (mentiras) sobre FDN


Você sabe o que é “Fake” (se fala Feike) ? Fake é uma mentira de internet que pega que nem chiclete. Pode ser propagada por zap, face, blog, etc.
Pra termos noção da gravidade do assunto é só observar que toda a imprensa brasileira afirma que as eleições de 2018 serão repletas de Fakes criados por “robôs”. OBS: Ainda não temos robôs que pensam.
Fakes (ou mentiras, para os mais raiz) é uma das melhores formas de acabar com a reputação de alguém ou de um grupo.
Nos últimos dias circulou por SP um Fake que afirmava que uma facção do norte do país (FDN) estaria invadindo a cidade de São paulo e atracando contra os familiares e amigos dos membros do PCC. Tal mentira afetou o psicológico de quem está encarcerado e de seus familiares, prejudicando inclusive a VISITA, o mais importante fator positivo realizado durante pena.
Observando de longe este é no mínino o segundo Fake que tenta atingir o PCC desde 2017, quando as mentiras eram sobre o desaparecimento de crianças nas periferias de SP e a suposta responsabilidade do PCC.
Como não confiamos no ESTADO e muito menos no seu braço armado, nóis da periferia só pode pensar que isso é COISA da polícia e nóis só pode concluir que isso é TERRORISMO. Concluímos também que TERRORISMO começa sempre pelo lado mais forte que é o ESTADO, a ELITE e seus ROBÔS que pensam que pensam.
A irresponsabilidade desses boatos pode inclusive levar a uma relação hostil entre são paulo e nordeste, são paulo e rio. E isso ninguém tá querendo, né?



domingo, 24 de dezembro de 2017

O NATAL DOS COVARDES

O NATAL DOS COVARDES
Por: Marcelo Freixo.
O que diriam os pregadores da intolerância, os obreiros do justiçamento, os apóstolos do olho por olho dente por dente sobre um homem que manifestou seu amor por um ladrão condenado e lhe prometeu o paraíso? Brandiriam o velho sermonário: bandido bom é bandido morto?

Hoje, quase todos os brasileiros, inclusive os cônscios moralistas da violência que amarram adolescentes em postes para linchá-los, se reunirão com suas famílias para celebrar mais uma vez o nascimento desse homem.

Sujeito, aliás, que respondeu à provocação: está com pena? Então, leva para casa! Pois, é. Jesus Cristo prometeu levar o ladrão para casa. "Em verdade te digo que hoje estarás comigo no Paraíso", diz o evangelho de Lucas.

Jesus optou pelos oprimidos e renegados, pelos miseráveis, leprosos, prostitutas, bandidos. Solidarizou-se com o refugo da sociedade em que viveu, contestou a ordem que os excluiu.

O Cristo bíblico foi um dos primeiros e mais inspiradores defensores dos direitos humanos e morreu por isso. Foi perseguido, supliciado e executado pelo Império Romano para servir de exemplo.

Assim como servem de exemplo os jovens que são espancados e crucificados em postes, na ilusão de que a violência se resolve com violência. Conhecemos a mensagem cristã, mas preferimos a prática romana. Somos os algozes.

Questiono-me sobre o que seria dele em nossa Jerusalém de justiceiros. Não sei se sobreviveria. É perigoso defender a tolerância, o amor ao próximo e o perdão quando o ódio é tão banal. Como escreveu Guimarães Rosa: "quando vier, que venha armado".

Não é difícil imaginar por onde ele andaria. Sem dúvida, não estaria com os fariseus que conclamam a violência e fazem negócios, inclusive políticos, em seu nome.

Caminharia pelos presídios, centros de amnésia da nossa desumanidade, onde entulhamos aqueles que descartamos e queremos esquecer, os leprosos do século 21. Impediria que homossexuais fossem apedrejados, mulheres violentadas e jovens negros linchados em praça pública. Estaria com os favelados, sertanejos, sem tetos e sem terras.

Por ironia, no próximo Natal, aqueles que defendem a redução da maioridade penal, pregam o endurecimento do sistema prisional, sonham com a pena de morte e fingem não ver os crimes praticados pelo Estado contra os pobres receberão um condenado em suas casas.

Diante da mesa farta, espero que as ideias e a história desse homem sirvam, pelo menos, como uma provocação à reflexão. Paulo Freire dizia que amar é um ato de coragem. Deixemos então o ódio para os covardes.